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Porque você deveria criar conteúdo em português

Porque você deveria criar conteúdo em português.

Esse fim de semana, o Giovanni Bassi escreveu um tweet dizendo o seguinte:

Brasileiros de TI que moram no Brasil, sem relevância alguma no exterior, tuitando em inglês. Até quando? Nosso país precisa de gente boa, precisa incluir centenas de milhares de pessoas na TI, e a maioria delas não fala inglês.
Seja melhor: compartilhe em Português.

Muita gente concordou com ele. Eu inclusive.

Mas também rolou algo que acontece toda vez que alguém compartilha sua opinião de maneira mais forte na internet: as pessoas entenderam o que ele quis dizer de formas diferentes e houve muita discordância e debate. Até ofensas.

Eu já tive a oportunidade de conversar com o Giovanni pessoalmente algumas vezes e ele é uma das pessoas mais coerentes que eu conheço na área de TI.
Mas ele tem um excesso de confiança na hora de falar e se posicionar que, pra algumas pessoas, pode soar como arrogância.

Talvez ele até seja arrogante às vezes, eu não sei. Eu gosto dele.

Meu ponto aqui não é defender o Giovanni, mas explicar porque eu concordo com ele.

Então vamos dar um passo atrás, respirar fundo e pensar um pouco, ok?

Você pode escrever em inglês se quiser

Antes de mais nada é bom lembrar que seu twitter, facebook, blog e etc são seus e é óbvio que você faz o que bem entender com eles.

Existem várias razões pra querer escrever em inglês: praticar a escrita do idioma, buscar uma oportunidade no exterior, se comunicar com pessoas de outra cultura. E tá tudo bem.

Minha ideia não é falar pra você não fazer isso.
Mas te dar boas razões pra você escrever em português em todos os seus canais (twitter, blog, facebook, instagram, etc).

Inclusão

Eu não vou colocar porcentagens aqui porque provavelmente vou errar, mas a grande maioria dos brasileiros não fala um segundo idioma e não entende nada de inglês.

Quando escreve em inglês, você acaba excluindo essas pessoas da conversa.

"É só usar um tradutor"

Eu vi uma galera falando isso no meio dessa discussão.

Toda vez que uma frase começar com "é só..." existe uma grande possibilidade de ser uma solução simplista e completamente desconexa da realidade.

Imagine que você é um completo iniciante e quer procurar por onde começar com programação. Você não entende inglês e isso nunca pareceu algo importante na sua vida.

Faz algum sentido pesquisar em inglês e aí sim traduzir o artigo?
Faz algum sentido começar a seguir pessoas com perfis em inglês que você não faz a menor ideia de quem são e o que estão falando e traduzir seus tweets?

Mesmo se você já estiver estudando há um tempo e quiser ler um artigo que só existe em inglês e jogar no tradutor, não vai ser a mesma coisa do que ele ter sido escrito por uma pessoa nativa.

Se tradutor fosse a solução pra tudo, não existiriam pessoas na comunidade trabalhando em traduções de documentações de projetos open source pra língua nativa delas.

Meu ponto é: não saber inglês é uma barreira pra muitas pessoas. E não é só usar um tradutor que vai resolver isso.

Mas quem trabalha na área de TI não tem que saber inglês?

O ideal é que sim.
Depois de um tempo dentro da área, se você não entender o mínimo de inglês, muito provavelmente irá se limitar em vários aspectos.

Então: sim. O ideal é que você aprenda inglês o quanto antes se realmente quiser ir longe.

Mas não deveria ser uma barreira pra quem quer começar, sabe?

"Mas na minha época era tudo em inglês, eu não falava e mesmo assim eu me virei".
Que bom que você se virou.
Mas não seria melhor se você não tivesse que ter se virado? Se você tivesse gastado esse tempo que perdeu se virando consumindo algo que converssasse diretamente com você e sua realidade? Que você tivesse aproveitado o tempo que estudou apenas aprendendo e não tendo que decifrar se o que você tá lendo realmente significa aquilo?

Não me entenda mal: força de vontade pra se virar e aprender é algo incrível e as pessoas que "se viram" costumam ir longe.

Falta de oportunidade

Nós vivemos em um país extremamente desigual e tem gente que simplesmente não tem tempo pra ter força de vontade. Aprender outro idioma não é algo que você faz do dia pra noite: exige estudo, tempo, dedicação e muita prática.

Tem gente que com 16 anos já tá levantando 5h da manhã e pegando 3h de condução pra ajudar a colocar comida em casa. E eu tô pegando leve.

Pra quem tá na área já faz um tempo faz todo o sentido você pensar e falar que inglês é essencial.

Mas a grande maioria das pessoas crescem sem nem ouvir esse tipo de coisa. A prioridade é conseguir estudar, conseguir comer, ter um trocado pra ter um lazer. Inglês nem de longe é uma prioridade.

Eu cresci com meu pai falando que inglês era importante, que eu tinha que aprender e com 11 anos eu já tava matriculado em uma escola de inglês. Só comecei a trabalhar de verdade depois dos 20 anos.

Minha adolescência foi estudar, jogar jogo online e ver série e filme. É óbvio que eu aprendi inglês sem problema nenhum.

Mas pra maioria não é assim.

"Eu tive uma vida difícil e consegui".
Mais uma vez: meus parabéns. Mas você é exceção.

Não podemos transformar a exceção em regra.

Não é porque as coisas funcionam pra você que vão funcionar pra todo mundo. Existem muitos fatores a serem levados em conta.

Atingindo pessoas próximas de você

Inglês é o "idioma universal" da área de tecnologia.
Teoricamente, se você escreve em inglês está atingindo o "mundo todo" e não só quem entende português.

Mas olha, pensa aqui comigo: o que você imaginar de conteúdo de tecnologia, muito provavelmente já existe em inglês. O que você criar em inglês vai ser mais um.

E isso é ruim? É claro que não. Quanto mais conteúdo, melhor.
Mas porque não direcionar esse esforço atingindo pessoas próximas de você? Do seu país? Do seu estado? Da sua cidade? Da sua comunidade?

Eu tenho esse blog desde 2015 e, junto com o meu trabalho na Alura, é o que me fez ser razoavelmente relevante na área.

Sabe qual é o post mais acessado do meu blog?
Esse: Criando e enviando arquivos para o seu repositório no Github.

Pra quem já programa há um tempo, é um artigo ridiculamente básico. Mas ele é, de longe, o mais acessado de todos os tempos daqui. Olha o tanto de comentários que existem lá me agradecendo.
Eu já fui palestrar em evento e uma pessoa veio me agradecer por esse post.

Será que isso aconteceria se eu escrevesse em inglês?

Identificação

Existe uma carência muito grande de conteúdo em português, mas não é só a questão do idioma: as pessoas querem ver gente com quem elas se identificam, com a mesma origem que elas e mesmos problemas.

É legal ver um gringo falando sobre programação e te ensinando o que você precisa? É.

Mas e ver um cara que saiu do interior do Ceará e veio pra São Paulo tentar a vida, se fudeu mas hoje tá trabalhando na área?
Uma mina que cresceu no Capão e hoje estuda na USP e trabalha com Data Science?
Um cara que trabalhou até os 32 anos como professor de história, mudou de profissão e hoje tá aprendendo Java?
Alguém que tem as mesmas dificuldades que você mas que tá lutando e conseguindo seu espaço?

E aí olhar e pensar "uau, essa pessoa é muito parecida comigo. Se ela pode, eu também posso".

Ganhando relevância

Quantas pessoas você conhece que blogam, fazem vídeo, tem podcast de tecnologia em português? E que fazem isso com frequência e fazem bem?

Profissionalmente, poucos. Dá pra contar nos dedos.
Tem muita gente tentando e se esforçando, mas ainda é pouco.

Há um espaço enorme pra quem tem vontade de criar conteúdo, se tornar relevante na área e transformar isso em uma segunda profissão.

Só esse ano, esse blog aqui me conseguiu pelo menos 6 freelas. E nada pra codar, viu? Só pra escrever e conversar com as pessoas.

Que pessoas? Brasileiros da área de tecnologia que falam português.

As oportunidades tão aí ;)


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