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em reflexão
Estamos usando a internet direito?

Estamos usando a internet direito?.

Quando eu tinha uns 6 anos de idade, morava em Lençóis Paulista e meu pai trabalhava de casa. Isso foi em meados de 1993, ou seja, meu pai já fazia home office antes do hype.

Eu sempre ficava por perto enquanto ele escrevia código Clipper numa tela azul em seu Compaq Presario.
Quando ele terminava de trabalhar, a gente costumava jogar algum joguinho juntos.

Mas um dia foi diferente...um dia ele me apresentou a internet. Eu não me lembro dos detalhes, só lembro dele falar que dava pra conversar com outras pessoas. Ele então abriu um software chamado PC Anywhere, que provavelmente nem existe mais, digitar algumas coisas e abrir um chat pra eu conversar com alguém (não faço ideia de como funcionava).

Mas nunca me esqueço que ele me deixou uma meia hora ali fuçando e eu conversei com alguém de nick LOBO_SOLITARIO. A conversa foi algo bem simples com perguntas tipo de onde você é, o que faz, quantos anos tem e etc. Pra mim isso foi algo incrível.

O começo na internet

Eu só fui começar a usar a internet de verdade anos depois, lá pra 99/2000.

E, nessa época, navegar na internet pra mim era acessar meia dúzia de sites que eu conhecia e entrar em salas de bate-papo do Universo Online (UOL) e Terra.

Essas salas eram uma coisa meio maluca... geralmente as pessoas postavam coisas como "sou um moreno lindo de 1.92 procurando uma solteira de Pirituba pra tc". Para os jovens, "tc" significa teclar. Uma pergunta muito comum dessa época e que hoje às vezes usamos ironicamente é de onde tc?.

Essas conversas pra mim não rendiam muita coisa, era mais um passatempo inútil mesmo.

Os fóruns de discussão

Anos depois, fui descobrir fóruns.

Eu participei de vários e a maioria eram sobre games. Mas é claro que rolava todo tipo de discussão por lá. Fiz amizade com algumas pessoas desses fóruns, que eu adicionava no ICQ e a gente trocava ideia sobre a vida por lá.

Nos fóruns eu fiz amigos de verdade, pessoas que tenho contato até hoje, acredita?

Essa semana mesmo eu tive essa conversa no instagram:

Esse é o Vitor, um amigo que conheci em um fórum de Games em meados de 2004. Nós nunca nos encontramos pessoalmente, mas já tivemos altas discussões filosóficas no ICQ sobre a vida quando eu era adolescente.

Depois do ICQ, adicionei ele no MSN. Depois do MSN, no Orkut. Depois do Orkut veio Facebook, Twitter, Instagram...e ele sempre esteve ali. Interagimos de tempos em tempos, mas sempre considerei ele uma pessoa próxima.

E, nessa conversa aí ele tinha postado uns stories falando que ficou um tempo mal por isso tinha dado um tempo de redes sociais, mas que agora tava tudo bem e ele tava de volta, agradecendo os amigos que ajudaram. E ele postou isso apenas para sua lista de "melhores amigos" que tem no instagram, sabe? Por isso que eu comentei "feliz por estar aqui".

O que tá acontecendo?

Meu ponto com esse post é: eu não me comunico e participo de discussões ativamente na internet como fazia lá nos anos 2000. E sinto que a maioria das pessoas também não.

Pensei nisso essa semana e fiz esse tweet.

E algumas pessoas que concordavam comigo começaram a aparecer:

O Thiago tem um bom ponto aqui: a grande maioria das pessoas hoje em dia não usa a internet no PC, mas exclusivamente no celular. E nem sempre é um celular bom.

A experiência de usar a internet direto do navegador pode não ser a melhor se você tem um celular e uma internet mais ou menos. Fora que, em pleno 2020, muitos sites não são responsivos prejudicando a experiência do usuário ali.

É muito mais fácil as pessoas simplesmente abrirem o Facebook/Twitter e ver tudo o que querem ali, não é?

Mesmo porque em vários planos das operadoras de celular, navegar em algumas redes sociais é de graça. Pra muita gente, o Facebook é a internet.

O Jociel já questiona se não tem conteúdo demais... será Jociel?

Talvez tenha muito conteúdo nas redes sociais mesmo: muita gente criando seu próprio canal, página, etc e tal. Mas será que temos muito conteúdo mesmo?. Eu sinceramente não sei.

Desde que uso a internet, já vi vários portais e sites fecharem suas portas porque não conseguem ser competitivos com as redes sociais.

De uns tempos pra cá eu comecei a prestar atenção: quando eu me levanto pela manhã, geralmente vou direto pro banheiro fazer xixi. E eu sempre levo o celular junto e já começo a abrir twitter e instagram pra checar as notificações, dar uma olhada nas últimas postagens...

Antes do meu cérebro acordar direito, eu já tô enchendo ele de coisa... geralmente, conteúdo inútil ou notícias que vão me deixar indignado (você sabe bem o que eu quero dizer com isso).

Tenho tentado me controlar pra não ser assim o tempo todo. Não pego mais o celular na mão assim que acordo: passo um café, leio um livro, me alongo.

Os feeds das redes sociais foram desenvolvidos pra funcionar como se fossem caça-níqueis: você fica rodando e rodando elas ali, esperando que apareça algo que te interessa, te indigna, te deixa puto.

Recomendo demais esse episódio do Braincast onde eles falam sobre esse processo e o nosso vício em indignação.

Estamos parando de conversar?

O que a Ana diz aqui é a realidade de muita gente: as pessoas não querem ler textos longos, porque a maioria das redes oferece pra elas um conteúdo atrás do outro. Pra que ela vai ler um textão se, rolando pra baixo, tem um vídeo de gatinho tentando pular e caindo que vai dar uma injeção de dopamina nela em menos de 5s?

Acredito que um dos fatores pra enorme ascenção do conteúdo em vídeo é justamente esse: estamos com preguiça de ler e discutir. Só queremos consumir os feeds, passivamente. Eventualmente compartilhando aquilo com amigos e família.

Não me leve a mal: eu adoro o poder que as redes sociais tem pra compartilhar conteúdo, tanto que sou um usuário e criador assíduo delas.

Mas se por um lado ganhamos em quantidade de informação e opções, parece que estamos perdendo a profundidade dos assuntos e relações.

O que você acha?

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